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Perdas – Aprender a Perder sem se Perder

Categoria Luto

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PERDAS

As mortes pela Covid-19 impuseram aos enlutados a supressão de etapas importantes no processo de construção de sentido e aceitação de perdas, afetando de forma drástica o bem-estar emocional e físico das pessoas.

Mais do que nunca, as famílias precisam de amparo e apoio para vivenciar, de forma saudável, o difícil processo de luto. Com esse propósito, existe em Belo Horizonte, um grupo de apoio, API – Apoio a Perdas Irreparáveis – fundado e presidido pela professora e psicóloga Gláucia Tavares.

Gláucia é parceira do BioParque e tem contribuído, de forma importante, com sua grande sensibilidade e experiência profissional, para o aprimoramento de nossa proposta. O API se apresenta como: Uma rede que se propõe a dar apoio a pessoas enlutadas. É um espaço-tempo de partilha de vivências da dor da ausência e busca de meios para superação desta contingência.

Organizadora dos livros “Do Luto à Luta” e “E a vida continua, Glaucia em parceria com Eduardo Tavares, traz para nós uma reflexão sobre perdas.

       

 

 


Aprender a Perder sem se Perder

Eduardo Carlos Tavares /Gláucia Rezende Tavares

O mundo inicia, para cada um de nós, por aquilo que imaginamos. Lidamos com o que ainda não experimentamos, imaginando. Essa é a característica do início, o risco é o de nos encher de expectativas, não testando a realidade. Expectativa é achar que a vida e o mundo real tem que corresponder ao que imaginamos. Passamos a considerar certo aquilo que idealizamos e errado, até mesmo um desaforo, o que não corresponde a esta pré-programação mental.

A expectativa desmedida faz viver mal, colocando-nos em condição de sofrimento desmedido. De tanta expectativa, não se saboreia os momentos presentes, aprisionando em decepções e sendo constantemente afligidos pelo medo. Temos expectativa do que não depende de nós e queremos o que depende. Apegados à expectativa, no lugar de agir diante do que se apresenta, nos colocamos em posição reativa diante desses fatos. Sair da condição de apego ao que imaginamos e nos permitir surfar no fluxo da vida é se resignar quando algo escapa da nossa ilusão de controle.

Não faz sentido espernear contra a vida. Nossa crença irracional de que o que imaginamos tem que ser, define nossa baixa tolerância à frustração. Diante de acontecimento difícil, a saída mais precária é a reação impulsiva. É uma mistura de imaginário infantil e irracionalidade, equivalendo a um nível de maturidade relacional infantil com a vida, a despeito de qualquer idade cronológica.

Quando não conseguimos fazer o luto das nossas expectativas, colocamo-nos como derrotados, sem condições de ir além das decepções. Odiar a condição de frustração é adiar a realização do que é possível. A despeito de abatidos pelos sonhos não realizados, vale não nos estagnarmos diante do real, que flui. Aprender a perder sem se perder. Transformar as expectativas em experiências e vivências, apontando para realizações e contínuos aprendizados. Colocarmo-nos como aprendizes é considerar a nossa luz própria e também a nossa sombra. Podemos conectar a nossa sombra e a nossa luz, expandindo e permitindo vibrar o nosso maior bem, que é a coragem alegre e a alegria corajosa de viver, por inteiro.

O nosso lado humano briga e se contrapõe aos fatos da vida, humanizar é um exercício objetivo de amorosidade à vida, a despeito das frustrações e das dores reais. Existe um sofrimento inútil, que implica no estancamento irracional, e um sofrimento útil, que nos faz ver as coisas como são, aprender com elas e avaliar o que é possível modificar. Há perda de tempo com rancores e dissimulação.

Aprender a perder sem se perder é exercitar a correção de percursos, abrindo mão do que não é mais, do que é supérfluo e nos direcionar para o que é essencial. Reconhecer que ser rico na vida é se permitir viver e curtir o que o dinheiro não compra.

A mudança mental se dá diante da disposição de encarar a objetividade do real que é, porque é. Enfrentar o realismo da vida requer o exercício de diminuir a nossa ilusão e o autoengano. Aprender a perder sem se perder é um exercício da nossa humildade e a sensibilidade em distinguir o momento de agir e o de aguardar. Apego é a incapacidade de retirar-se a tempo.

Parar de desejar é parar de viver. Esperar um pouco menos e querer um pouco mais. O caminho é de nos colocarmos como eternos aprendizes da ação e de amar, menos dependente da expectativa e do medo. Trata-se de viver, no lugar de esperar viver. Quem retarda a vida esperando dias melhores, os que adiam a felicidade, estão, de fato, matando o tempo.

Aprender a perder sem se perder requer aprender a viver. A morte não acumula a vida. Vale escolher entre o amor ilusório à vida e o amor lúcido a ela. Ficar refém da expectativa nos priva de um futuro experimentado, fixando-nos em opiniões de como tem ou não que ser. A vida não para de se ensinar a si mesma, de se inventar a si mesma. A vida vale refletida, vivida em ação e em verdade, aqui e agora, a despeito do que se apresenta. Vive eternamente quem vive no presente. Não é o instante que damos valor, é o eterno presente que dura e passa.

Segundo Vimala Thakan a eternidade está contida no momento e o infinito é envolvido pelo agora. Chama-se de tempo kairós o tempo oportuno, o momento propício, a ocasião favorável. São momentos que se põem a serviço da vida, que nos trazem ao real, à verdade de viver e à lucidez. Alienar é mentir sobre a vida e o real e desprezar as suas lições. Viver lucidamente é perceber que não há diferença entre a eternidade e o presente.

“O mundo e a vida só nos parecem absurdos porque não correspondem às nossas esperanças.” Camus

A coragem alegre e alegria corajosa não se apoiam em outra vida que seja preciso alcançar, é a própria vida simples e difícil, com dores e aprendizados. Já estamos nela, basta vive-la.

A questão não é se a vida é bela ou trágica. Ela contém ambas as condições, porque a vida é contraditória. A questão é se dispor a amar a vida tal como ela se desdobra. A vida verdadeira não é dada, ela é vivida em sua totalidade não dividida.

Aprender a perder sem se perder aponta para o exercício da sensibilidade, lidar com o luto é nos colocar como aprendizes da capacidade de amar depois da perda. Sair da fúria de viver contra e construir uma disposição de viver com o que se apresenta, tal qual é. Amar é o antídoto principal contra o rancor e o ódio. De que vale a vida se não amamos? Não há valor absoluto. A beleza só vale para quem ama a verdade e a justiça. Amar é dar valor ao objeto amado. Melancolia é a perda da capacidade de amar. O que nos sufoca não é a lucidez, é a angústia, o egoísmo, a dureza de coração, a falta de coragem de amar. O oposto à asfixia é respirar livre e amorosamente diante do real.

“Você só é amado quando pode mostrar sua fraqueza sem que o outro se sirva dela para afirmar sua força”. Adorno

Habitar o real, existir no contexto, que é o que forma o conjunto de nossas experiências, é a fonte da disposição do aprendiz. O inesgotável aprendizado de como viver bem, validando escolhas que sejam funcionais, úteis e que se desdobrem em bem estar pessoal e relacional. Não é uma condição vinculada a pretensões acadêmicas, não busca manchetes e nem aplausos, nutre-se com a presença calma e calma presença. O conhecimento instrui e a disposição a aprender transforma. O desafio é se apropriar da alegria de conhecer e de viver a despeito dos nossos limites e aproveitar as possibilidades. Desejar, amar e alegrar-se. Quando o desejo se retira na vazante do viver o que fica a descoberto é a própria morte.

A disposição a amar não é mais forte do que a morte. É apesar da morte e fora do seu alcance. No fortalecimento de vínculos solidários abrem-se possibilidades para se sair do sofrimento desmedido, favorecendo a elaboração de um novo sentido de viver.

MT

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Referências:

Eduardo Carlos Tavares e Gláucia Rezende Tavares

TAVARES, E.C.; TAVARES, G.R. Aprender a perder sem se perder. In: TAVARES, E.C.; TAVARES, G.R (Org.) E a vida continua…. Belo Horizonte: Edição do autor, 2016. p. 18-20.
Glaucia Tavares é psicóloga clínica, professora assistente da Universidade FUMEC, mestre em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina da UFMG, cofundadora da Rede API – Apoio a Perdas (Ir) Reparáveis.

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